segunda-feira, 11 de julho de 2016

A insulina e a saúde hormonal

A insulina e a saúde hormonal




A INSULINA E A SAÚDE DA MAMA E DA PRÓSTATA
por José Carlos Peixoto

Saúde hormonal e insulina elevada: como as intervenções alimentares low-carb podem proteger a saúde das mulheres e dos homens

Em 2015, o jornal Diabesity, publicou um artigo muito interessante, onde se demonstrava a intersecção de uma série de enfermidades crônicas e degenerativas por um aspecto comum: a hiperinsulinemia (taxas elevadas de insulina no sangue). Algumas enfermidades eram naturalmente bastante óbvias, como aquelas relativas a problemas endócrinos tais como obesidade e diabetes. Mas um grupo de doenças pode parecer intrigante para muitos: alguns tipos de câncer. A tabela relaciona o câncer de mama e o de ovário de forma direta ou indireta às taxas elevadas de insulina (os outros eram bexiga, intestino, fígado e pâncreas). (Quadro completo AQUI).

Como as taxas de insulina podem ser manejadas em boa medida por intervenções alimentares, podemos inferir que um estilo de alimentação que não promova seu aumento cronicamente possa ser uma estratégia de prevenção primária para doenças que geralmente ficam na dependência de diagnóstico precoce para serem enfrentadas (e não evitadas).

A Saúde da Mama e as Taxas de Insulina

Embora não seja um tema amplamente divulgado, a questão de um quadro metabólico estar envolvido com o câncer de mama não é novidade.

Já em 1992 um artigo intitulado “Insulin resistence and Breast Cancer Risk” (1) (Resistência à Insulina e o Risco do Câncer de Mama), que foi publicado no International Journal of Cancer, trazia o seguinte resumo: 

O estilo de vida tem uma grande influência sobre a incidência de câncer de mama. Para avaliar os efeitos de estilo de vida relacionados com fatores endócrinos metabólicos - no risco de câncer de mama foi realizado um estudo caso-controle comparando 223 mulheres com idades entre 38 e 75 anos que apresentavam câncer de mama operável (estágio I ou II) e 441 mulheres da mesma idade sem câncer de mama, que participaram de um programa de rastreio populacional de câncer mamário. Foram excluídas mulheres que referiram diabetes mellitus. O exame de sangue de um grupo de 110 mulheres da mesma faixa etária com melanoma em fase inicial, linfoma ou câncer de colo foi utilizado como um “segundo grupo de controle com outro câncer”. Os níveis séricos de peptídeo C foram significativamente maiores nos casos de câncer de mama precoce em relação aos controles. O mesmo foi verificado para na relação do peptídeo C / glicose ou do peptídeo C / frutosamina, indicadores de resistência à insulina. A SHBG (globulina ligadora de hormônios sexuais) tem relação inversa, os triglicerídeos e o estradiol disponível tem relação positiva com o nível de peptídeo C. Os níveis séricos de peptídeo C estavam relacionados com índice de massa corporal (IMC) e relação cintura / quadril (RCQ), em particular nos controles. No entanto, o aumento relativo de peptídeo C, o peptídeo C para glicose ou o peptídeo C para frutosamina - nos casos era independente do IMC ou RCQ. O risco relativo de registro foi linearmente relacionado com os níveis de registro de peptídeo C.
O risco relativo de acordo com quintis, e ajustados para idade, história familiar, IMC e RCQ, para mulheres no nível de 80% foi de 2,9, em comparação com aqueles que estão no nível de 20% de peptídeo C (nível de 20%, a quinta parte do grupo com as taxas mais baixas de peptídeo C, nível de 80% tem as taxas mais altas). Taxas elevadas de peptídeo C ou relação de peptídeo C para frutosamina não foram observados no soro de mulheres que pertenciam ao "grupo de controle outro-câncer".

Este estudo sugere que a hiperinsulinemia com resistência à insulina é um fator de risco significativo para o câncer de mama independente da adiposidade geral ou distribuição de gordura corporal. 

(Esse estudo utiliza a dosagem o peptídeo C, que é a molécula que é liberada no metabolismo da insulina, é um marcador da produção de insulina endógena, não sensível as variações provocadas pelo uso de insulina como medicamento na diabete tipo I, por exemplo)

No final do artigo é afirmado: 

O peptídeo C com seu efeito significante e independente sobre o risco de câncer de mama representa um novo fator de risco que é mais forte do que a maioria dos outros fatores conhecidos. A insulina atua tanto diretamente no crescimento celular e como indiretamente, pois os níveis de insulina são inversamente proporcionais à SHBG e, portanto, positivamente relacionados com a disponibilidade de estradiol e testosterona. A correlação negativa entre os níveis séricos de insulina e SHBG, recentemente, também foi relatado por outros estudos (Folsom et al., 1990). (...)
Em conclusão, este estudo de caso-controle sugere que a hiperinsulinemia com resistência à insulina é um link metabólico significativo entre o estilo de vida, caracterizado por hábitos alimentares e falta de exercício físico, e doenças como câncer de mama,(...)

Numa edição de 2012 do International Journal of Breast Cancer (2), um artigo de revisão resume que: 

A síndrome metabólica, que pode incluir ganho de peso e obesidade central, taxas de insulina e glicose sérica elevadas e resistência à insulina, tem sido fortemente associado com recorrência do câncer de mama e piores resultados após o tratamento.

Em uma pesquisa publicada pela revista Molecular Carcinogenesis de 2008 (3) foi relatado que as mulheres judias Ashkenazi que apresentam mutações nos genes BRCA tinham um início retardado do câncer de mama se não fossem obesas na adolescência e praticassem mais atividade física. Esse estudo correlaciona esse gene com uma enzima envolvida no metabolismo de ácidos graxos como a síndrome metabólica do câncer de mama (BRCA1 and Acetyl-CoA Carboxylase:
 The Metabolic Syndrome of Breast Cancer
). 

Como citado por John R Lee, em seu livro de título provocante (4), a relação entre o consumo de carboidratos, ganho de peso e estímulo ao estrogênio tem impacto predominante ao câncer de mama e pode ter sido uma das mudanças de hábitos que teria aumentado as taxas dessa doença na atualidade, especialmente nas sociedades industrializadas. O tecido adiposo produz aromatase, que é a enzima que converte hormônios masculinos em estrogênios, os hormônios mais ativos no tecido mamário, (tanto é verdade que uma das estratégias de tratamento de câncer de mama é o uso de inibidores seletivos de receptores de estrogênio, tal como o tamoxifeno). O Dr. John R. Lee entende que essa múltipla ação pró-estrogênica ligada à adiposidade pode ser a explicação para homens obesos, com barriga proeminente terem a região mamária obviamente pronunciada. 

Isso é explicado assim no artigo do International Journal of Biological Sciences, (6), de 2011, quando trata do tópico - Estrogênio, obesidade e câncer de mama:

O aumento da percentagem de tecido adiposo na obesidade proporciona um nível aumentado de aromatase, o que resulta num aumento da síntese de estrogénio. Além disso, a obesidade, bem como a hiperinsulinemia e os níveis elevados de IGF-1 foram demonstrados redutores da produção de globulina ligadora de hormônios sexuais (SHBG). Isto também leva a um aumento da biodisponibilidade de estrogénios. Mostrou-se que os caminhos do receptor de IGF-1 (IGF-1R) e receptor de estrogênio (ER) sinergizam na ativação da cinase de proteína ativada por mitogénio (MAPK). O estrogênio foi demonstrado induzir a expressão do IGF-1R, bem como os substratos dos receptores de insulina (IRS-1 e IRS-2). Esses efeitos do estrogênio conduzem a uma fosforilação do IRS-1 aumentada e, portanto, um aumento da ativação da MAPK consequente a estimulação do IGF-1 nas células de tumor de mama (MCF-7). A leptina e insulina, bem como o Fator de Necrose Tumoral alfa (TNF-α) e a Interleucina 6 (IL-6) são conhecidos como indutores da aromatase e, consequentemente, estimulam a biossíntese de estrogênio. Estes resultados podem explicar a conexão do maior crescimento do câncer de mama em pacientes com DM2 (diabetes mellitus tipo II) e obesidade.

Mesmo que muito personagens envolvidos tenham denominações complicadas para a maioria das pessoas, fica claro que a insulina, e as conhecidas consequências ou relações com suas taxas elevadas, que inclui obesidade, diabetes e síndrome metabólica, tem marcada participação nas etapas fisio-patológicas do câncer de mama. 

O gráfico 1 que mostra relações dos personagens de quadros metabólicos e o câncer de mama (de acordo com referência 11):




A saúde da próstata e as questões metabólicas

Várias revisões e artigos de pesquisa apontam para a relação entre duas situações muito perturbadoras da saúde do homem com as taxas de insulina, síndrome metabólica e obesidade. Tanto a hiperplasia benigna da próstata quanto o câncer de próstata têm relação com níveis de insulina e suas implicações. 

Sobre o câncer de próstata, vejamos o que diz uma revisão publicada em 2005 pelo European Journal of Cancer, intitulado ”Hyperinsulinaemia: A prospective risk factor for lethal clinical prostate cancer”: (5) (Esse estudo incluía 320 homens, com câncer de próstata, avaliados entre 1995-2003).

(...) Isto confirma um estudo anterior, que o câncer de próstata é um componente da síndrome metabólica. Esta síndrome tem sido descrita como uma única entidade caracterizada pela absorção defeituosa da glicose mediada pela insulina. Os resultados do presente estudo indicam que pacientes com câncer de próstata clínico podem ter a mesma anormalidade metabólica da limitação de absorção de glicose mediada pela insulina com hiperinsulinemia secundária, como ocorre em pacientes com síndrome metabólica. Nossos dados também sugerem que as aberrações metabólicas precedem o desenvolvimento de câncer de próstata clínico letal. Os níveis aumentados de insulina precedem o câncer de próstata letal, o que suporta a hipótese de que a hiperinsulinemia é um promotor de câncer da próstata clínico letal e que a resistência à insulina e / ou hiperinsulinemia são eventos precoces no desenvolvimento do câncer de próstata clínico. Nossos dados sugerem que o nível de insulina pode ser usado como um marcador do câncer de próstata, do prognóstico do câncer e da agressividade do tumor, independentemente do estágio e grau de câncer prostático do paciente e nível de PSA. Além disso, o nível de insulina é interessante como um fator de risco prognóstico, porque é modificável através de intervenções no estilo de vida, nutricionais e farmacêuticas. Assim, um programa de redução da insulina pode retardar/ reduzir o crescimento de um câncer de próstata clínico. (...)

Um estudo bem mais recente publicado em 2014 no Asian Pacific Journal of Cancer Prevention (7) conclui que “Níveis elevados de insulina de jejum parecem estar associado com maior risco para o câncer de próstata”. Nesse caso, o estudo feito com homens no Nepal, os níveis mais altos de insulina de jejum (maior que 6,10) estava associado a um risco 2,5 vezes maior para esse câncer. 

Um outro estudo piloto, também asiático, publicado em 2010 (8), mostra resultados semelhantes em relação as taxas mais elevadas de insulina de jejum com o câncer de próstata. Essa publicação também relaciona a obesidade central, as taxas mais altas de triglicerídeos e as taxas mais elevadas de VLDL colesterol com essa enfermidade. Na discussão os autores apontam que: 

A obesidade central está associada com a resistência à insulina, hiperinsulinemia e a dislipidemia. Em nosso estudo, uma alta pontuação de Gleason foi estatisticamente associada com níveis de insulina mais elevados (p = 0,027). A insulina é reconhecida por ser um mitógeno (multiplicador) direto no crescimento da próstata in vitro e é necessário para o crescimento de células de câncer de próstata em cultura. Um estudo de caso-controle na China encontrou uma associação positiva estatisticamente significativa entre a insulina de jejum e de risco de câncer de próstata, indicando que a insulina pode ser um mediador que promove o desenvolvimento do câncer de próstata.

Adicionalmente, esse estudo coloca a questão da testosterona de uma maneira mais desafiadora no contexto do câncer de próstata, se associando a pesquisadores que entendem que o problema tem relação hormonal com o declínio da testosterona e aumento da expressão estrogênica, algo facilmente entendido na perspectiva metabólica. 

A testosterona é um fator-chave do crescimento da próstata, embora o câncer de próstata se apresente numa idade em que os níveis de testosterona estão em declínio. Sabe-se que a aromatase presente no tecido adiposo leva à diminuição dos níveis de testosterona devido a conversão periférica da testosterona em estradiol. Estudos sugeriram que a testosterona pode exercer um efeito de diferenciação sobre o câncer de próstata e a diminuição da testosterona no soro e um aumento dos níveis de estradiol pode estar associada com o câncer de próstata mais avançado e pouco diferenciado. Os níveis mais baixos de testosterona podem também ser devido à resistência à insulina o que leva a diminuição da produção de testosterona pelas células de Leydig, ou devido ao efeito de feedback negativo de proteínas inibidoras presentes em pacientes com câncer de próstata no eixo hipotálamo-hipófise- gonadal. (O câncer com menos diferenciação é considerado geralmente de pior prognóstico em qualquer tecido).

O aumento benigno da próstata é geralmente conhecido com hiperplasia benigna da próstata (HBP). Embora se trate de um transtorno sem características de malignidade, pode ser extremamente prejudicial para a qualidade de vida do homem maduro, pois costuma trazer prejuízos no sono, na função urinária, eventualmente com episódios de obstrução que precisa de intervenção como o uso de sondas, e muitos tratamentos podem trazer consequências prejudiciais à função erétil e para ejaculação em pós-operatórios, muitas vezes de forma permanente.

Já em 2001 uma pesquisa com 307 homens publicada no European Urology chegava a seguinte conclusão: 

Os resultados apoiam a hipótese de que a hiperinsulinemia está causalmente relacionada com o desenvolvimento de HBP e geram a hipótese de um aumento da atividade do nervo simpático em homens com HBP. (9)

Uma ampla revisão sobre o tema pode ser encontrada no artigo publicado pelo European Journal of Phamacology (10), em 2010. Esse artigo traz um gráfico com os diversos caminhos fisiopatológicos que compartilham o crescimento da próstata, que está reproduzido abaixo (é um pouco complexo - figura 2). Mas a conclusão é: 

(...) A síndrome de resistência à insulina está associada com o grupo de doenças que inclui, obesidade, intolerância à glicose, a disfunção endotelial, dislipidemia, diabetes e hipertensão. A revisão cuidadosa da literatura epidemiológica / clínica e experimental pertinente à co-existência de resistência à insulina ou fatores associados à resistência à insulina com a HBP, mostra claramente que a resistência à insulina é um fator de risco importante para a hiperplasia prostática. Além disso, diferentes componentes da síndrome de resistência à insulina estão interligados com uns aos outros e ativam vários mecanismos de promoção do crescimento da próstata e, assim, afetar a susceptibilidade para o desenvolvimento subsequente da HBP sintomática. (...)

O que importa é que essa breve revisão nos mostra que o cuidado alimentar – com a finalidade de manter as taxas de insulina de jejum em níveis mais baixas, e que pode ser resultado de uma alimentação com baixo teor de carboidratos, - pode ser uma estratégia acessível à população em geral, e consistentemente protetora para doenças bastante comuns que afetam dramaticamente milhares de homens e mulheres. 

Embora possa parecer simplismo afirmar que isso vai evitar que tantos indivíduos tenham essas enfermidades, os estudos nos dão base bastante sólida para mostrar que esse tipo de intervenção como medida de saúde pública seja a mais promissora, mais barata e menos sofrida estratégia para minimizar (e possivelmente prevenir) os sofrimentos com o câncer de mama e as doenças de próstata entre nós (além, é claro, de uma série de outras doenças ligadas taxas elevadas de insulina elevada).

Informações adicionais:

Aqui uma tabela que traz a relação entre distúrbios metabólicos (obesidade/diabetes) e certos tipos de câncer:



Figura 1 - http://www.ijbs.com/v07p1003.htm



Legenda da figura 2: Inter-relações entre diferentes fatores associados à resistência à insulina e seu possível envolvimento na patogênese da hipertrofia prostática. Disfunção na sinalização da insulina nos tecidos sensíveis à insulina clássicos (músculo, fígado e tecido adiposo) promove o desenvolvimento de hiperglicemia, dislipidemia e hiperinsulinemia. O aumento do nível de insulina é detectado pelo hipotálamo ventromedial e resulta na hiperatividade do simpático. Os fatores inter-relacionados associados à resistência à insulina promovem o crescimento da próstata por meio da modulação da lista de personagens: a insulina; o fator de crescimento semelhante à insulina -1 (IGF-1), PPAR-α / γ e sinalização de androgénio. G-6-P= Glicose-6-fosfato; GLUT2 e GLUT-4: transportador de glucose 2 e 4, HK= Hexoquinase; PFK= Fosfofrutoquinase, PDH= piruvato desidrogenase, PPAR α / γ= receptores ativados por proliferador de peroxissoma alfa / gama; IGFBP= proteína de ligação do fator de crescimento semelhante a insulina, SHBG= globulina de ligação de hormônios sexuais, GH; hormônio de crescimento; 5-AR= 5-alfa redutase; T= testosterona; DHT= Dihidrotestosterona, AR= receptor de andrógeno. (10)

Referências

Referências

(Essa revisão não incluiu outros temas pertinentes às doenças estudadas, como aspectos da poluição ambiental de ação hormonal e a influência de ácidos graxos alimentares, que serão analisados em artigos posteriores)




Compilação de José Carlos Brasil Peixoto – para o Paleodiário  

sexta-feira, 8 de julho de 2016

A VERDADE SOBRE GORDURA E AÇÚCAR É FINALMENTE EXPLICADA

A VERDADE SOBRE GORDURA E AÇÚCAR É FINALMENTE EXPLICADA

Artigo traduzido por Hilton Sousa e Regiany Floriano (primeira parceria entre o Paleodiário e o Menos Rótulos – que venham muitas!). O original está aqui.

por Men's Health

Novas estatísticas retornam com a gordura para o paredão de fuzilamento, mas nós não estamos convencidos. Eis aqui o porquê.



Outro estudo sobre gorduras, outro resultado contraditório. De acordo com um novo estudo de Harvard, a gordura saturada, como a encontrada na recém-redimida manteiga, aumenta seu risco de doença cardíaca, câncer e demência. Na busca pela palavra final sobre o assunto, entramos em contato com um dos membros-fundadores da Colaboração pela Saúde Pública, Dr. Aseem Malhotra, para explicar a verdade sobre o que estamos comendo.

Esta manha, como faço na maioria dos dias, quebrei o jejum com um omelete de 3 ovos preparado com óleo de coco, e um leite integral com café. Saboreei uma fatia de queijo integral com meu almoço, usei uma boa dose de azeite de oliva na minha salada noturna e lanchei castanhas ao longo do dia. Resumindo, ingeri uma quantidade grande de gordura e, como cardiologista que já tratou milhares de pessoas com doença cardíaca, isso pode parecer um comportamento peculiar. Gordura, afinal de contas, entope nossas artérias e nos faz ganhar quilos – ao menos é o que o aconselhamento médico/nutricional prevalecente nos quer fazer crer. Como resultado, a maioria de nós gastou anos fugindo das comidas ricas em gorduras e escolhendo suas contrapartes "sem gordura", na esperança de que isso nos deixasse mais em forma e saudáveis.

E ainda assim, agora estou convencido de que estamos ao contrário, promovendo danos sobre os quais não se fala: longe de ser a melhor coisa para a saúde ou perda de peso, uma dieta pobre em gorduras é o oposto. Na prática, eu digo que a mudança no aconselhamento nutricional de 1977, para restringir o volume de gordura que ingerimos, ajudou a instaurar a epidemia de obesidade que se revela hoje. É uma afirmação audaciosa, mas suportada por uma série de pesquisas recentes.

Atualmente, faço questão de dizer a meus pacientes – muitos dos quais estão lutando com problemas cardíacos debilitantes – para evitar qualquer coisa que tenha "baixa gordura" no rótulo. Melhor ainda, eu lhes digo para adotar laticínios integrais e outras gorduras saturadas dentro do contexto de um plano alimentar saudável. É uma instrução que às vezes é recebida com boca aberta e espanto, juntamente com a minha prescrição de manter-se longe de qualquer coisa que prometa reduzir o colesterol – outra dessas afirmações que nos dizem que pode promover saúde cardíaca e arterial ótimas.

Conforme veremos, a realidade tem muito mais nuances: em alguns casos, baixar os níveis de colesterol pode na prática aumentar a morte e a mortalidade cardiovascular, enquanto em pessoas saudáveis acima de 60 anos colesterol mais alto está associado com menor risco de mortalidade. O motivo, exatamente, veremos mais à frente.

Primeiramente, deixe-me esclarecer que até muito recentemente, eu também assumia que manter a gordura no mínimo era a chave para me manter saudável emagro. Na prática, dizer que a minha dieta girava em torno de carboidratos é eufemismo: cereal açucarado, torrada e suco de laranja no desjejum, sanduíche no almoço e massa no jantar não era um cardápio incomum. Combustível bom e confiável, ou assim eu pensava – especialmente por ser um esportista e corredor ávido. Ainda assim, eu tinha aquela "pochete" de gordura na barriga que nenhuma quantidade de futebol parecia consumir.


Essa, entretanto, não foi a razão pela qual comecei a mudar o que comia. O processo começou em 2012, quando li um artigo chamado "A tóxica verdade sobre o açúcar", do Robert Lustig, na Revista Nature. Nele, Lustig, professor de pediatria que também trabalha no Centro de Avaliação da Obesidade da Universidade da Califórnia, dizia que os perigos à saúde humana causados pelo açúcar eram tais que produtos cheios de açúcar deveriam carregar os mesmos alertas que o álcool. Foi um abrir de olhos: como médico, eu já sabia que muito de qualquer coisa é ruim para você, mas aqui estava alguém dizendo que algo que a maioria de nós come sem pensar todo dia estava, lentamente, nos matando.

Quanto mais eu busquei, mais tornou-se abundantemente claro que era o açúcar, e não a gordura, que estava causando muitos dos nossos problemas – que é o motivo pelo qual, juntamente com um grupo de colegas médicos, lancei o grupo de lobby "Ação sobre o açúcar" ano passado – com o objetivo de persuadir a indústria alimenícia a reduzir o açúcar adicionado em alimentos processados. 

Então no início desse ano eu tive outro momento de iluminação. Em fevereiro, Karen Thomson, a neta do pioneiro de transplante cardíacao Christian Barnard, e Timothy Noakes, um professor altamente respeitado de medicina esportiva da Universidade da Cidade do Cabo, me convidaram para falar no primeiro "encontro low-carb" na África do Sul. Eu fiquei intrigado, particularmente pelo fato de os organizadores serem pessoas fascinantes. Ex-modelo, Thomson tem lutado corajosamente contra uma série de vícios incluíndo álcool e cocaína, mas ultimamente é outro pó – um que ela chama de "puro, branco e mortal" – que resultou na criação, por parte dela, da primeira clínica de recuperação de viciados em açúcar e carboidratos do mundo, na Cidade do Cabo. 

Noakes, enquanto isso, recentemente fez uma notável reviravolta no próprio conselho dietético que ele defendeu pela maior parte da sua carreira: o de que atletas precisam encher-se de carboidratos para melhorar a performance. Ele mesmo um corredor de maratona, foi considerado o garoto-propaganda para dietas de alto carboidrato para atletas – e então ele desenvolveu diabetes tipo 2. Efetivamente arrancando páginas de seu próprio livro, Noakes agora diz que atletas – e isso vale para todos nós que gostam de uma corridinha despretensiosa no parque também – podem tirar sua energia das cetonas, não da glicose. Isso é, da gordura – e não do açúcar.

Junto com eles estavam 15 palestrantes internacionais, variando de médicos, acadêmicos e ativistas de saúde que entre si produziram uma demolição eloquente e baseada em evidências do "modo low-fat" de pensar – bem como sugeriram que é o consumo de carboidratos, e não de alimentos gordurosos, que está abastecendo a epidemia de obesidade.

Abrindo a conferência Gary Taubes, um ex-físico de Harvard que escreveu The diet delusion – onde argumentou que são os carboidratos refinados os responsáveis pelas doenças cardíacas, diabetes, obesidade, câncer e muitas outras das nossas doenças ocidentais. O livro causou polêmica quando foi lançado há 7 anos, mas sua mensagem está finalmente ganhando força. E a mensagem é esta: a obesidade não depende de quantas calorias que comemos, mas do que nós comemos. Os carboidratos refinados abastecem a produção excedente de insulina, que por sua vez promove o armazenamento de gordura. Em outras palavras: as calorias provenientes da gordura por si só, não são o problema.

É uma mensagem sólida que foi reforçada vez ou outra na conferência. Tome o médico de família sueco Dr. Andreas Eenfeldt, que dirige o blog de saúde mais popular do país o Diet Doctor. Em seu país de origem, os estudos mostram que até 23% da população estão aderindo a uma dieta de baixo carboidrato, com alto teor de gordura. Uma bomba-relógio você pode pensar – mas ao contrário das expectativas, enquanto as taxas de obesidade estão subindo em qualquer outro lugar, já estão começando a mostrar um declínio por lá.

Mais pesquisas sobre essa correlação ainda estão por serem feitas – entretanto, o Conselho Sueco de Tecnologia da Saúde já deixou sua posição clara. Após uma revisão de 2 anos envolvendo 16 cientistas,concluiu que uma dieta baixa em carboidratos, com alto teor de gordura, pode não só ser o melhor para a perda de peso, mas também para reduzir vários marcadores de risco cardiovascular em obesos. Em suma, como o Dr. Eenfeldt disse na conferência: "Você não engorda por comer alimentos gordurosos, assim como você não fica verde por comer vegetais verdes".

Isto é claro, é uma mensagem difícil de engolir para muitos, particularmente para os pacientes cardíacos, a maioria dos quais passou anos perseguindo uma dieta com baixo teor de gordura, pobre em colesterol, como sendo a melhor maneira de preservar a saúde do coração.

É uma mensagem de saúde pública que foi promovida pela primeira vez na década de 1960, após o estudo Framingham Heart, respeitado globalmente, que consagrou o colesterol elevado como sendo um importante fator de risco para a doença cardíaca. É a pedra fundamental das mensagens governamentais e de saúde pública – mas o que as pessoas não sabiam era que o estudo também levantou algumas estatísticas mais complexas como esta aqui: para cada 1 mg/dl por ano de queda nos níveis de colesterol em pessoas que participaram do estudo, houve um aumento de 14% na mortalidade cardiovascular e um aumento de 11% na mortalidade nos 18 anos seguintes, para aqueles com idade superior a 50 anos.

Esta não é a única estatística que não se assenta com a mensagem predominante anti-colesterol: em 2013, um grupo de acadêmicos estudou dados não-publicados anteriormente de um estudo seminal feito no início dos anos 1970, conhecido como o estudo da Dieta do Coração de Sydney. Eles descobriram que os pacientes cardíacos que substituíram a manteiga pela margarina tiveram um aumento da mortalidade, apesar de uma redução de 13% no colesterol total. E o estudo do Coração de Honolulu, publicado no Lancet em 2001 concluiu que, em pessoas com mais de 60 anos, um colesterol total elevado está inversamente associado com o risco de morte. Surpreendente, não é? Um colesterol mais baixo não é em si a marca de sucesso, ele só funciona em paralelo com outros marcadores importantes, como a diminuição da tamanho da cintura e a redução dos marcadores sanguíneos para diabetes.



Por outro lado, uma quantidade crescente de evidências sugere que, longe de contribuir para os problemas cardíacos, ter laticínios integrais em sua dieta pode realmente protegê-lo das doenças cardíacas e diabetes tipo 2. O que a maioria das pessoas não consegue entender é que, quando se trata de dieta, os polifenóis e ácidos graxos ômega-3 abundantes no azeite extra-virgem de oliva, nozes, peixes gordos e os vegetais são os que ajudam a reduzir rapidamente a trombose e a inflamação independente das alterações no colesterol. No entanto, os produtos lácteos integrais continuam sendo demonizados – até agora.

Em 2014, dois estudos do Cambridge Medical Research Council concluíram que as gorduras saturadas na corrente sanguínea provenientes de produtos lácteos estavam inversamente associados com diabetes tipo 2 e doenças cardíacas. O que significa que em quantidades moderadas – ninguém aqui está falando para devorar uma tábua de queijos em uma sentada – o queijo é realmente um proponente de boa saúde e longevidade. O mesmo estudo, incidentalmente, constatou que o consumo de amido, açúcar e álcool estimula a produção de ácidos graxos pelo fígado que se correlaciona com um aumento do risco para estas doenças mortais.

É em relação ao diabetes tipo 2, de fato, que a mensagem pró-carboidrato-anti-gordura das últimas décadas tem feito alguns dos maiores danos. Um grande número de pacientes que sofrem de diabetes tipo 2 – o tipo mais comum – estão trabalhando sob o perigoso equívoco que uma dieta com baixo teor de gordura, rica em carboidratos dos amidos vai ajudar os seus medicamentos de forma mais eficaz. Eles não poderiam estar mais errados. No início deste ano, uma revisão crítica na respeitada revista Nutritionconcluiu que a restrição dos carboidratos na dieta é uma das intervenções mais eficazes para reduzir as características da síndrome metabólica.

Seria melhor mudar o nome do diabetes tipo 2 para "doença da intolerância aos carboidratos". Tente dizer isso ao público então. Como o homem que ligou para um programa de uma rádio nacional em Cape Town no qual eu estava fazendo parte para discutir a relação entre a dieta e doenças cardíacas. Diagnosticado com diabetes tipo 2, ele estava sob a impressão de que deveria consumir açúcar para que seus medicamentos para diabetes pudessem "funcionar" – quando na verdade ele estava piorando seus sintomas. E quantos médicos e pacientes sabem que, apesar de alguns destes medicamentos para controlar o açúcar no sangue possam marginalmente reduzir o risco de desenvolver doença renal, doença ocular e neuropatia, eles realmente não têm qualquer impacto sobre os riscos de ataque cardíaco, AVC ou reduzir as taxas de mortalidade ? Por outro lado a perigosa redução do açúcar no sangue pelo excesso de medicamentos para diabetes, tem sido responsável por cerca de 100.000 atendimentos de emergência por ano nos Estados Unidos.
Mas quem pode culpar o público por tais percepções equivocadas? Na minha opinião, uma tempestade perfeita de financiamento de pesquisas tendenciosas, reportagens tendenciosas na mídia e conflitos de interesse comerciais tem contribuído para uma epidemia de médicos mal-informados e pacientes malinformados. O resultado é uma nação de sobremedicados viciados em açúcar que estão comendo e se entupindo de pílulas e armando o palco para anos de sofrimento com doenças debilitantes crônicas e uma morte prematura.
É por isso que, hoje em dia, eu raramente toco no pão, me livrei de todos os açúcares adicionados e adotei a gordura como parte da minha dieta inspirada numa variedade mediterrânea. Sinto-me melhor, tenho mais energia e – embora eu não tivesse a intenção de fazê-lo – perdi o pneu adiposo em torno da minha cintura, apesar de reduzir o tempo que eu gasto com atividades físicas.
Talvez você não consiga fazer todas essas mudanças de uma só vez. Nesse caso, se fizer só uma coisa, faça isto: da próxima vez que for ao supermercado e ficar tentado a pegar um pote de margarina com baixo teor de gordura (light), compre um pote de manteiga ou, melhor ainda, uma garrafa de azeite extra virgem. Seu coração vai agradecer por isso. O pai da medicina moderna Hipócrates disse uma vez, "Deixe o alimento ser o seu remédio e o seu remédio ser o teu alimento". E agora nós deixamos a "gordura" ser o nosso remédio.

Como desintoxicar o fígado em 5 passos e aumentar sua energia

Como desintoxicar o fígado em 5 passos e aumentar sua energia

A maioria das doenças crônicas tem uma mesma raiz: deficiência de nutrientes ou toxicidade. Um dos órgãos mais importantes no processo de desintoxicação do corpo é o fígado.
Acontece que, justamente com o excesso de toxinas que existem hoje tanto nos nossos alimentos quanto no ar que respiramos, além dos produtos que estamos expostos, fica cada vez mais difícil para o fígado lidar com essas toxinas.
No vídeo de hoje, contamos quais são os sintomas de um fígado sobrecarregado e os 5 passos que você pode seguir para desintoxicar o fígado para ter mais energia e viver uma vida mais longa.
Se você curtiu o vídeo, por favor compartilhe-o nas redes sociais.
Se você ainda não baixou nosso e-book gratuito “Os 7 pilares para uma vida mais feliz e saudável”, baixe-o aqui http://puraeco.com/ebook
Superbeijo!
Laura & Tammy
#energizesuavida

Qual é de fato a dieta do mediterrâneo? (Parte III)

Qual é de fato a dieta do mediterrâneo? (Parte III)


Comida mediterrânea: Cypriot kebab sheftalia

Na onda da discussão ressurgida sobre manteiga, azeite, gorduras saturadas etc, um artigo de Joanna Blythman que traz a tona esse tema. Na verdade esse blog já discutiu há algum tem essa questão dieta chamada uniformemente de mediterrânea em em dois artigos (parte um LINK e parte dois: LINK).
O artigo original é de 29 de junho, no Grocer.co, mas não está disponível para não assinantes. Tenho o prazer de trazê-lo até os leitores do lipidofobia.

Mitologia das dietas estrangeiras

Joanna Blythman

Os nutricionistas parecem terrivelmente confusos a respeito de hábitos alimentares de estrangeiros. Eles entusiasticamente promovem a Dieta Mediterrânea, definida no último Predimed Study como “não incluir carne vermelha ou manteiga” e por ser comido “peixe, nozes, vegetais, frutas e cereais integrais”. Mas da onde foi tirada a ideia de que as pessoas no Mediterrâneo não comem carne vermelha?
greek gyros
Claramente estes experts nunca ouviram, nem mesmo provaram “sheftalia”, a celebrada linguiça cipriota, gorda feita de tripa de porco ou carneiro, ou se largaram num ‘mechoui’ (Slow roasted lamb) tunisiano – um carneiro inteiro assado no espeto. Nenhum deles degustou o stifado grego (guisado de carne com cebola) ou penetrado seus dentes no gyros (aparas de carne geralmente porco assados na posição vertical). Como eles esqueceram desse tradicional prato de qualquer canto de Thessaloniki (capital da Macedônia) até Creta? Somente um desatento excepcional poderia visitar a Turquia sem visitar lugares que vendem kofta e o suculento Iskender kabab  (usualmente de carneiro, as vezes de bovino).
Na Sardenha, carneiro, bovinos e cervos são cozidos na rua em espetos ‘alla brace’  o que é tão comum que chega a ser entediante. Daube provençale é feito com pedaço de carne, não é de cubos de Qorn (proteína de origem fungica, ou carne de bolor, obtida do Fusarium Venenatum). Presunto curado é sine qua non na dieta mediterrânea da Espanha. E esteja avisado, os Corsos reagem mal se você não aceita a honraria de seus típicos copa madura (aged coppa), salgada, seca (pescoço de porco) e lonzu (lombo de proco).
Eu poderia continuar , mas não farei; é muito embaraçoso oferecer um flash de luz em tamanha ignorância. Mas me deixe apenas tocar na noção de o povo do Mediterrâneo são entusiastas do grãos integrais. Afora o maftoul palestino, que contém uma pequena quantidade de trigo integral, eu não me lembro de jamais ter sida servida de grãos integrais no Mediterrâneo. Grão refinados –bulgur (triguilho), couscous (cuscuz, de sêmola de trigo), arroz – são REIS!
Poderia existir apenas um única dogmática formula dietética saudável universal? Dietas nórdicas (porções de peixe, fermentados, porco curado, fígado) também parecem sustentadores da vida. E não são apenas peixes: os suecos tem também sua própria versão de haggis (porção de vísceras e miúdos escocês), a pölsa. Não é também o Japão uma importante referência de alimentação saudável para o mundo? Agora eles vendem um gordo 神戸ビーフ (Kobe beef – carne Kobe, a carne mais cara do mundo).
Estou começando a pensar que os apóstulos da mítica dieta mediterrânea (Med Diet)  não viajam para o estrangeiro o suficiente. Eles precisam de umas férias, de preferência bem longa, e não às custas de impostos dos contribuintes.

Gordura faz bem para a saúde

Gordura faz bem para a saúde




Um artigo que não poderia faltar no blog lipidofobia publicado na revista Men's Health, do admirável cardiologista dr Assem Malhotra, sobre um dos temas mais básicos para a promoção de saúde da população. Uma declaração pessoal corajosa e despojada. Uma síntese de muitos artigos publicados anteriormente.

 A VERDADE SOBRE A GORDURA SATURADA E O AÇÚCAR

Título original: A verdade sobre a gordura saturada e o açúcar finalmente explicado

Artigo publicado pela Men's Health em 23/05/2016
Autor Dr Aseem Malhotra

Outro estudo sobre a gordura, outro resultado contraditório. De acordo com a nova pesquisa da Universidade de Harvard, a gordura saturada, como a encontrada na recentemente redimida manteiga, aumenta o risco de doenças cardíacas, câncer e demência. Na busca de uma palavra final, nós procuramos um dos membros fundadores da Colaboração em Saúde Pública, Dr. Aseem Malhotra, para explicar a verdade por trás do que estamos comendo.

Dr Aseem Malhotra
Esta manhã, como faço quase todos os dias, eu tenho meu café da manhã com um omelete de três ovos cozido em óleo de coco, mais um café com leite integral. Eu gosto de uma fatia de queijo gordo em meu almoço, servido uma dose generosa de azeite em minha salada à noite e como nozes durante todo o dia. Em suma, eu tenho ingerido uma boa quantidade de gordura e, como um cardiologista que tratou milhares de pessoas com a doença cardíaca, isso pode parecer uma forma particularmente peculiar de se comportar. A gordura, afinal, se incrusta em nossas artérias e se amontoa em nosso sobrepeso - ou pelo menos é o que o prevalente aconselhamento médico e dietético tem nos levado a crer. Como resultado, a maioria de nós já passou anos evitando alimentos integrais ricos em gordura em favor de seus equivalentes de 'baixo teor de gordura', na esperança de que isso vai nos deixar mais em forma e saudáveis.
No entanto, agora estou convencido que ao invés disso temos promovido danos incalculáveis: longe de ser a melhor coisa para a saúde ou para a perda de peso, uma dieta de baixa gordura é o oposto. Na verdade, eu iria tão longe a ponto de dizer que a mudança no aconselhamento dietético de 1977 no sentido de restringir a quantidade de gordura que deveríamos comer ajudou a fomentar a epidemia da obesidade desencadeada nos dias de hoje. É uma afirmação ousada, mas eu acredito que é sustentada por um conjunto de recentes pesquisas.
(Relacionado: A maneira saudável de adicionar o queijo à sua dieta)
Atualmente eu tenho chamado a atenção de meus pacientes - muitos dos quais estão lidando com debilitantes problemas cardíacos - para evitar qualquer coisa com o rótulo «baixo teor de gordura". Mais do que isso, eu lhes digo, para adotarem laticínios integrais em gordura e outras gorduras saturadas dentro do contexto de um plano de alimentação saudável. É uma instrução que às vezes é recebido com a boca aberta de espanto, juntamente com o meu pedido não usarem qualquer coisa que prometa reduzir o colesterol - mais um daqueles decretos que são contadas pode promover usma saúde cardíaca e arterial ideal.
Como veremos, a realidade tem muito mais nuances: em alguns casos, a redução dos níveis de colesterol pode realmente aumentar a morte cardiovascular e mortalidade, enquanto que em pessoas saudáveis ​​com mais de sessenta anos e um colesterol mais elevado estará associado a um menor risco de mortalidade. Por que, exatamente, veremos mais tarde.
Primeiro, porém, quero deixar bem claro que até muito recentemente, eu também assumi que manter a gordura a um mínimo era a chave para manter-se saudável e elegante. Na verdade, dizer que a minha dieta girava em torno de carboidratos é provavelmente um eufemismo: cereal com açúcar, torradas e suco de laranja para o desjejum, um panini para o almoço e massas para o jantar não seria um menu diário incomum. Um sólido bom combustível, ou assim eu pensava, especialmente como sou um entusiasmado desportista e corredor. Ainda assim, eu tinha uma faixa de gordura em volta do meu estômago, que qualquer quantidade de futebol e corrida parecia modificar.
Isso, porém, não era a razão pela qual eu comecei a explorar a mudança no que eu comia. Esse processo começou em 2012, quando li um artigo chamado 'A verdade tóxica sobre o açúcar' de Robert Lustig na revista científica Nature. Nele, Lustig, um Professor de Pediatria, que também trabalha na Universidade do Centro da Califórnia para a Avaliação de obesidade, disse que os perigos para a saúde humana causados ​​pela adição de açúcar eram tais que os produtos embalados com ele deveriam ter as mesmas advertências dos etílicos. Foi uma grande surpresa: como um médico como eu que já sabia muito de qualquer coisa é ruim para você, mas aqui era alguém nos dizendo que algo que a maioria de nós come sem pensar todos os dias estava, lentamente, a nos matar.
Quanto mais eu olhava para ele, mais ele tornou-se claro para mim que era o açúcar, e não a gordura, que estava causando tantos dos nossos problemas - e é por isso, juntamente com um grupo de colegas médicos especialistas que lançamos o grupo de lobby Action on Sugar no ano passado com o objetivo de persuadir a indústria de alimentos para reduzir a adição de açúcar em alimentos processados.
Em seguida, no início deste mesmo ano eu tive um outro momento de iluminação. Em fevereiro, Karen Thomson, a neta do pioneiro em transplante de coração, o cirurgião Christian Barnard, e Timothy Noakes, professor altamente respeitado do Exercise and Sports Medicine at the University, de Cape Town, me convidaram para falar na primeira reunião mundial de cúpula "low carb" na África do Sul. Fiquei intrigado, especialmente com os anfitriões da conferência que são dois personagens fascinantes. A ex-modelo, Thomson corajosamente lutou contra uma série de vícios incluindo álcool e cocaína, mas ultimamente é outro pó – um que  ela rotula de "puro, branco e mortal' - que resultou na abertura do  primeiro centro clínico de reabilitação do vício em carboidratos e açúcar do mundo, na Cidade do Cabo.
Noakes, por sua vez, recentemente realizou uma reviravolta muito notável no aconselhamento dietético que ele mesmo expôs na maioria do tempo de sua ilustre carreira: isto é, que os atletas precisam ter uma carga de carboidratos para melhorar seus desempenhos. Um corredor de maratona, que foi considerado o garoto-propaganda das dietas ricas em carboidratos para atletas - acabou desenvolvendo diabetes tipo 2. Efetivamente rasgando páginas de seu próprio livro, Noakes diz agora aos atletas - e isso vale para aqueles de nós que gostamos de correr ao redor de um parque também – que podem obter a sua energia a partir de cetonas, não de glicose. Isto é, a partir de gorduras e não de açúcar.
Ao lado deles foram quinze palestrantes internacionais que vão desde médicos, acadêmicos e ativistas de saúde, que entre eles produziram uma eloquente desconstrução, baseada em evidências, do pensamento do "baixo teor de gordura" -, assim como sugerindo que é o consumo de carboidratos, e não de alimentos gordurosos, que está alimentando a nossa epidemia de obesidade.
(Relacionados: Saúde Masculina investiga epidemia de diabetes da Grã-Bretanha)
A abertura da conferência teve Gary Taubes, um ex-físico de Harvard que escreveu The Diet Delusion (A dieta enganosa), onde ele argumentou que são os carboidratos refinados que são responsáveis ​​por doenças cardíacas, diabetes, obesidade, câncer e muitas outras das nossas doenças ocidentais. O livro causou polêmica quando foi lançado há sete anos, mas sua mensagem está finalmente ganhando força. E essa mensagem é esta: a obesidade não é sobre quantas calorias comemos, mas o que nós comemos. Os carboidratos refinados abastecem a produção excedente de insulina, que por sua vez promove o armazenamento de gordura. Em outras palavras: não são as calorias provenientes da própria gordura que são o problema.

É uma mensagem robusta que foi reforçada cada vez mais na conferência. Tome o médico de família sueco Dr. Andreas Eenfeldt, que dirige o blog de saúde mais popular do país: Diet Doctor. Em seu país de origem, os estudos mostram que até vinte e três por cento da população estão abraçando uma dieta com alto teor de gordura e baixo carboidrato. Uma bomba-relógio de tempo que você poderia imaginar - mas ao contrário das expectativas, enquanto que as taxas de obesidade estão a subir em qualquer outro lugar, eles já estão começando a mostrar um declínio lá.
Mais pesquisas sobre essa correlação ainda estão para serem realizadas - mas, entretanto, o Conselho Sueco de Tecnologia da Saúde fez a sua clara posição. Após uma revisão de dois anos envolvendo dezesseis cientistas, concluiu que uma dieta com alto teor de gordura, baixa em carboidratos pode não só ser o melhor para perda de peso, mas também para a redução de vários marcadores de risco cardiovascular em obesos. Em suma, como Dr Eenfeldt disse na conferência, 'Você não engordam por comer alimentos gordurosos, assim como você não ficam verdes por comer vegetais.'
Isto, é claro, é uma mensagem difícil para muitos de engolir; particularmente para pacientes cardíacos, a maioria dos quais passou anos perseguindo uma dieta de baixo teor de gordura, reduzida em colesterol, como a melhor maneira de preservar a saúde do coração.
É uma mensagem de saúde pública que foi promovida pela primeira vez na década de sessenta, após o estudo respeitado globalmente Framingham Heart que crucificou o colesterol elevado como um importante fator de risco para doença cardíaca. É uma pedra angular das mensagens governamentais e de saúde pública - ainda que as pessoas não soubessem que esse estudo também levantou algumas estatísticas mais complexas. Como esta: para cada 1 mg / dl de queda por ano nos níveis de colesterol em pessoas que participaram do estudo, houve um aumento de 14% na mortalidade cardiovascular e um aumento de 11% na mortalidade nos 18 anos seguintes, para aqueles com idade superior a 50 anos.
Não é a única estatística que não se assenta com a prevalecente mensagem anti-colesterol: em 2013, um grupo de acadêmicos estudaram dados previamente não publicados de um estudo primordial feito no início dos anos setenta, conhecido como o estudo Sydney Diet Heart. Eles descobriram que os pacientes cardíacos que substituíram a manteiga pela margarina tiveram um aumento da mortalidade, apesar de uma redução de 13% no colesterol total. E o estudo Honolulu Heart publicado no Lancet em 2001 concluiu que, em pessoas com mais de sessenta anos um colesterol total elevado é inversamente associado com o risco de morte. Surpreendente, não é? Um colesterol mais baixo não é em si uma marca de sucesso, ele só funciona em paralelo com outros marcadores importantes, como uma redução nas medidas da cintura e diminuição dos marcadores sanguíneos para diabetes.
Por outro lado, uma enorme quantidade de evidências sugere que, longe de contribuir para problemas cardíacos, tendo os laticínios integrais em gordura em sua dieta pode realmente protegê-lo de doenças cardíacas e diabetes tipo 2. O que a maioria das pessoas não conseguem entender é que, quando se trata de dieta, são os polifenóis e ácidos graxos ômega 3 abundantes em óleo extra-virgem de oliva, nozes, peixes gordos e os vegetais que ajudam a reduzir rapidamente a trombose e inflamação independente das alterações no colesterol. No entanto, os laticínios integrais em gordura se mantiveram demonizados - até agora.

Em 2014, dois estudos do Cambridge Medical Research Council concluíram que as gorduras saturadas na corrente sanguínea que proveram de produtos lácteos foram inversamente associadas com a diabetes tipo 2 e doenças cardíacas. O que significa que em quantidades moderadas - ninguém aqui está falando sobre devorar uma tábua de queijos em uma sentada - o queijo é realmente um defensor da boa saúde e longevidade. O mesmo estudo, aliás, constatou que o consumo de amido, açúcar e álcool estimula a produção de ácidos graxos realizada pelo fígado que se correlacionam com um aumento do risco de estas doenças mortais.
É em torno da diabetes tipo 2, de fato, que a mensagem pró-carbos e anti-gordura das últimas décadas tem feito alguns dos maiores danos. Um grande número de pacientes que sofrem de diabetes tipo 2 - o tipo mais comum - estão se esforçando sob o equívoco perigoso de que uma alimentação com baixo teor de gordura, mas rica em carboidratos e amido vai ajudar a ação de seus medicamentos ser mais eficaz. Eles não podem estar mais errados. No início deste ano, uma revisão crítica na respeitada revista Nutrition concluiu que a restrição de carboidratos na dieta é uma das intervenções mais eficazes para reduzir as características da síndrome metabólica.
Seria melhor mudar o nome de diabetes tipo 2 para "doença de intolerância aos carboidratos". Tente no entanto dizer isso ao público. Como o homem que ligou para um programa de rádio nacional em Cape Town em que eu estava tomando parte para discutir a relação entre dieta e doenças cardíacas. Diagnosticado com diabetes tipo 2, ele estava sob a impressão de que ele tinha que consumir açúcar para que assim seus medicamentos para diabetes pudessem 'Funcionar' - quando na verdade ele estava rumando na piora de seus sintomas. E quantos médicos e pacientes sabem que, apesar de alguns destes medicamentos para controlar a glicose no sangue possam - marginalmente - reduzir o risco de desenvolver doença renal, doença ocular e neuropatia, eles realmente não têm qualquer impacto sobre ataque cardíaco, AVC risco ou reduzir as taxas de mortalidade? Pelo contrário, taxas  perigosamente baixas de glicose no sangue pela super-medicalização de remédios para diabetes tem sido responsável por cerca de 100.000 atendimentos de emergência por ano nos Estados Unidos.
Mas quem pode culpar o público para tais percepções equivocadas? Na minha opinião uma tormenta perfeita do financiamento para investigação tendenciosa, reportagens tendenciosas da mídia e conflitos de interesse comercial têm contribuído para uma epidemia de médicos mal informados e pacientes mal informados. O resultado é uma nação de viciados em açúcar super medicados que estão comendo mal e cheio de pílulas numa caminhada de anos de sofrimento com doenças debilitantes crônicas e uma morte prematura.
É por isso que, hoje em dia, eu raramente toco em pães, me livrei de todos os açúcares adicionados e tornei a gordura como parte da minha variada dieta de inspiração mediterrânica. Sinto-me melhor, tenho mais energia e - embora eu não tivesse a intenção de fazê-lo - eu perdi esse pneu adiposo em torno da minha cintura, apesar de reduzir o tempo que eu gasto em exercícios.
Talvez você não possa encarar de fazer todas essas mudanças de uma só vez. Nesse caso, se você fizer uma coisa, reflita sobre isso: da próxima vez que você estiver no supermercado e fique tentado a pegar um pacote de rótulo com baixo teor de gordura, ao invés compre um pacote de manteiga ou, melhor ainda, uma garrafa de azeite extra virgem. Seu coração vai agradecer por isso. O pai da moderna medicina, Hipócrates, disse uma vez, "Deixe o alimento ser seu remédio e o remédio o teu alimento". Agora é o momento de deixamos a "gordura" ser o remédio.